O Luto Invisivel
“Melhorar, para eles, muitas vezes significa voltar a ser quem era antes da doença.”
É diminuir a intensidade, diminuir o sofrimento e ensinar estratégias para que ele consiga viver melhor, mesmo sabendo que aquela condição continua existindo.
É por isso que eu acho tão importante a forma como a gente conversa com as famílias.
Talvez aquele rapaz nunca mais volte a ser o jogador de basquete.
Talvez ele nunca mais tenha o mesmo GPA.
Talvez ele nunca mais tenha exatamente os mesmos interesses que tinha aos dezoito anos.
Mas isso não significa que ele não possa ter qualidade de vida.
Talvez hoje a grande vitória seja conseguir ir à igreja com a mãe.
Conseguir almoçar com a família.
Conseguir cumprimentar uma visita sem entrar em paranoia.
Conseguir passar uma semana inteira tomando banho todos os dias.
Essas são as vitórias de hoje.
E eu acho que, muitas vezes, a família ainda está procurando as vitórias de doze anos atrás.Essa reflexão me lembra uma conversa que tive com a minha própria mãe.
Um dia ela veio me visitar e começou a falar de coisas de que eu gostava quando morava em minha cidade natal, ainda na casa dela aos 20 e poucos anos.
Ela dizia:
— Você gostava disso.
E eu respondia:
— Não gosto mais.
Ela falava de outra coisa.
— Você fazia isso.
— Também não faço mais.
Até que em determinado momento eu falei para ela:
— A senhora já percebeu que aquela menina que morava em Teixeira de Freitas morreu? É claro que eu não estava falando de morte.
Eu estava falando da pessoa que eu era e que hoje sou outra.
Já se passaram mais de quatorze anos desde que saí de casa. Nesse tempo eu morei em outros países, aprendi outros idiomas, conheci outras culturas, me casei, encontrei um propósito profissional. É impossível eu continuar sendo a mesma menina que ela conheceu.
O corpo é o mesmo. Um pouco mais flacido e caido, mas ainda ta ai.
Mas a pessoa mudou. Por dentro, por experiencias, por propositos, por rotinas quebradas.
E eu acho que isso acontece com todos nós.
Os pais, muitas vezes, continuam presos ao filho que conheceram anos atrás. À imagem que construíram daquela criança, daquele adolescente ou daquele jovem adulto. Ou mais, daquela crianca idealizada, que ja nasceu com o peso de ser alguem que os pais sonharam.
Eu tive uma grande sorte da minha mae sempre nos incetivar a "fazer o que gosta, sejam apenas honestos, trabalhadores e independentes. "Quando isso acontece comigo, (a comparacao, o julgamento) muda muito pouco a minha vida, ou quase nada.
Eu sou independente. Minha mãe pode continuar acreditando que eu gosto das mesmas coisas de quinze anos atrás, mas isso não interfere nas decisões que tomo hoje.
Na psiquiatria é diferente.
Muitos desses pacientes dependem completamente dos pais para tomar medicação, ir às consultas e organizar a própria vida. Quando a família continua esperando aquele filho que existia antes da doença, ela pode acabar deixando de enxergar quem aquele filho é hoje.
“E eu acho que esse é um luto sobre o qual quase ninguém fala.”
Não é o luto da morte.
É o luto da expectativa.
Aceitar que aquele jogador de basquete talvez não exista mais não significa desistir do filho.Significa começar a enxergar o homem que ainda está ali.Porque talvez ele nunca mais jogue basquete. Ainda que nunca tivesse sofrido transtorno mental. Quantos pais sao frustrados porque os filhos contradizem as imagens sonhadas.
Mas talvez ele consiga viver com dignidade.