Uma das maiores dificuldades que encontro na psiquiatria é que muitas famílias chegam acreditando que existe uma medicação capaz de resolver o problema. Elas imaginam que, depois de alguns meses de tratamento, o filho vai voltar a ser exatamente como era antes da doença. Esse talvez seja um dos primeiros pontos que precisamos compreender: esse não é o objetivo do tratamento.
Vou usar a esquizofrenia como exemplo porque é um dos transtornos que mais gera essa expectativa. Uma pessoa com esquizofrenia não deixa de ser esquizofrênica porque começou a tomar medicação. O tratamento serve para reduzir os sintomas, melhorar a qualidade de vida e devolver o máximo de funcionalidade possível. Em alguns pacientes, as vozes diminuem bastante; em outros, elas continuam existindo. A diferença é que o paciente aprende a conviver melhor com elas.
Quando uma pessoa escuta vozes de comando, por exemplo, ela pode acreditar que precisa obedecer ao que está ouvindo. Durante um episódio psicótico, muitas vezes ela não consegue distinguir se aquele comando veio de uma alucinação ou de uma pessoa que realmente falou com ela. Esse filtro da realidade fica comprometido. Por isso, o tratamento não consiste apenas em tentar eliminar as vozes. O tratamento também ensina o paciente a reconhecer que, mesmo ouvindo uma voz mandando fazer alguma coisa, ele não precisa obedecer.
Esse é um conceito importante porque muda completamente a expectativa da família. O tratamento não é uma cura. O tratamento é um conjunto de estratégias para que aquela pessoa consiga viver da melhor forma possível dentro da condição que ela tem.
É justamente aqui que muitas famílias sofrem. Quando o paciente passa alguns meses estável, elas concluem que ele está curado. Então a medicação é interrompida, os sintomas voltam e todos têm a sensação de que o tratamento falhou. Na verdade, o que aconteceu foi que a doença nunca deixou de existir. Quem diminuiu os sintomas foi o tratamento.
Lembro de uma mãe que me marcou muito. O filho dela tinha trinta anos e havia sido diagnosticado com esquizofrenia no início da vida adulta. Antes da doença se manifestar, ele jogava basquete, tinha excelentes notas na escola e um desempenho acadêmico muito acima da média. Enquanto conversávamos, percebi que ela falava daquele adolescente o tempo inteiro. Era como se ainda estivesse esperando que ele voltasse a ser exatamente aquela pessoa.
Foi nesse momento que percebi que aquela mãe ainda não havia vivido um luto. Não era o luto pela morte do filho, porque o filho estava vivo. Era o luto pela perda da expectativa. Ela ainda esperava reencontrar o rapaz que existia antes da doença, enquanto o tratamento tentava ajudá-la a enxergar o homem que estava diante dela.
Isso não significa que ela precisava perder a esperança. Significa apenas que a esperança precisava mudar de lugar. Talvez aquele rapaz que jogava basquete não voltasse a existir exatamente como antes. Mas aquele homem ainda podia conquistar muitas coisas. Ele podia voltar a dormir bem, tomar banho sozinho, participar de um almoço em família, acompanhar a mãe à igreja, ir ao supermercado sem entrar em crise ou receber uma visita sem acreditar que as pessoas estavam conspirando contra ele. Para muitas famílias, essas conquistas representam uma mudança enorme na qualidade de vida.
Essa situação me fez pensar em uma experiência da minha própria vida. Saí de casa aos vinte e quatro anos e hoje tenho trinta e oito. Quando minha mãe veio me visitar, percebi que muitas vezes ela ainda se referia à filha que morava com ela quatorze anos atrás. Ela dizia: “Mas você gostava disso.” E eu respondia: “Não gosto mais.” Ela lembrava de hábitos que eu tinha na juventude e estranhava perceber que eu havia mudado.
Em determinado momento, eu disse para ela: “Mãe, aquela menina que morava em Teixeira de Freitas já não existe mais.”
Não falei isso porque nossa relação era ruim. Falei porque todos nós mudamos. Eu morei em outros países, aprendi novos idiomas, conheci outras culturas, amadureci, me casei e encontrei um propósito de vida. Era natural que eu não fosse mais a mesma pessoa.
Essa experiência me ajudou a compreender algo importante. Todos os pais precisam fazer pequenos lutos ao longo da vida. Eles precisam aceitar que o filho de cinco anos desaparece para dar lugar ao adolescente. Depois, o adolescente desaparece para dar lugar ao adulto. Isso faz parte do desenvolvimento humano.
Na psiquiatria, esse processo costuma ser muito mais doloroso porque, além das mudanças naturais da vida, existe uma doença que modifica a trajetória daquela pessoa. Muitos desses pacientes continuam dependentes dos pais por muitos anos, às vezes por toda a vida. Isso faz com que a família permaneça emocionalmente presa à expectativa de quem aquele filho deveria ter sido.
Na minha opinião, esse é um dos maiores desafios que enfrentamos. Não é apenas tratar os sintomas do paciente. É ajudar a família a compreender que o tratamento não vai devolver o filho do passado. O tratamento vai ajudar esse filho a construir a melhor vida possível a partir da pessoa que ele é hoje.
Quando a mãe consegue compreender isso, ela deixa de procurar o filho que perdeu e começa a enxergar o filho que continua diante dela. É nesse momento que o tratamento passa a fazer sentido para toda a família.