Você escolheu morar nos Estados Unidos. Isso não significa que precisa amar todos os dias.

Imagine uma brasileira que acorda cedo, prepara o café, organiza a rotina da casa e sai para trabalhar. Talvez passe o dia inteiro falando inglês, ou fingindo que fala, resolvendo problemas, cumprindo horários e tentando dar conta de tudo. Talvez tenha filhos, contas para pagar, planos para realizar e uma família no Brasil que espera notícias de que está tudo bem.

Quando alguém pergunta como está a vida nos Estados Unidos, ela sorri e responde:

“Está tudo ótimo. Graças a Deus, não posso reclamar.”

E talvez, naquele momento, ela até acredite nisso.

Afinal, ela escolheu estar ali. Planejou a mudança, enfrentou dificuldades, deixou pessoas queridas para trás e trabalhou muito para construir uma vida nova. Como poderia reclamar agora?

Mas, quando chega em casa e finalmente fica sozinha, alguma coisa muda. O silêncio pesa. O cansaço parece maior do que deveria. A saudade aparece sem pedir licença. Às vezes, ela sente vontade de chorar sem saber explicar exatamente o motivo. Em outros dias, não sente vontade de fazer nada além de cumprir as obrigações e esperar que o dia termine.

Então vem o pensamento:

“Eu não tenho motivos para estar assim. Tem tanta gente querendo ter a oportunidade que eu tive.”

E ela segue.

Segue porque precisa trabalhar. Segue porque há pessoas que dependem dela. Segue porque acredita que precisa ser forte. E, principalmente, segue porque não sabe como admitir que a vida que tanto desejou também pode ser difícil.

Talvez essa história não seja exatamente a sua. Talvez você seja homem, tenha chegado sozinho, esteja tentando recomeçar a carreira ou tenha passado anos construindo uma vida que, hoje, não se parece em nada com aquela que imaginou.

Mas, se você se reconheceu em algum desses sentimentos, quero começar esta conversa com uma pergunta:

Em que momento você decidiu que, por ter escolhido imigrar, perdeu o direito de dizer que está sendo difícil?

A vida que imaginamos e a vida que realmente construímos

Quando pensamos em mudar de país, geralmente imaginamos aquilo que desejamos conquistar. Uma vida mais segura, melhores oportunidades, crescimento profissional, estabilidade financeira, novas experiências e um futuro diferente para nossos filhos.

Fazemos planos. Criamos expectativas. Em nossa imaginação, conseguimos visualizar a casa, o trabalho, as viagens, as conquistas e a sensação de que todo o esforço finalmente terá valido a pena.

O que nem sempre conseguimos imaginar é a vida entre uma conquista e outra.

O emprego que demora a aparecer. A profissão que precisa ser reconstruída. A dificuldade de expressar uma ideia simples em outro idioma. O aniversário de alguém querido que acontece enquanto estamos a milhares de quilômetros de distância. A sensação de não pertencer inteiramente a lugar nenhum.

No Brasil, talvez você soubesse exatamente a quem recorrer quando precisava de ajuda. Conhecia os caminhos, entendia as regras sociais, tinha pessoas com quem compartilhar as pequenas dificuldades do cotidiano. Nos Estados Unidos, até tarefas simples podem exigir um esforço que ninguém percebe.

E existe algo particularmente cansativo nisso: precisar aprender tantas coisas novas enquanto continua sendo responsável por tudo aquilo que já fazia antes.

Mudar de país não significa começar a vida sem problemas. Significa começar uma nova fase, com novas possibilidades, mas também com desafios, perdas, descobertas e preferências que talvez você nem soubesse que tinha.

Você pode descobrir que gosta de coisas que nunca imaginou. Pode sentir falta de hábitos que antes considerava banais. Pode amar a segurança de uma cidade americana e sentir saudade da espontaneidade das conversas brasileiras.

Pode gostar de morar aqui e não gostar de determinadas partes da vida que construiu aqui.

Tudo isso pode coexistir.

Você não precisa transformar sua escolha em uma história perfeita para reconhecer que ela também tem partes difíceis.

“Mas eu escolhi estar aqui. Não deveria reclamar.”

Essa frase merece um pouco de atenção.

Quando alguém escolhe imigrar, é comum sentir que precisa justificar a decisão o tempo todo. Para quem ficou no Brasil, a vida no exterior pode parecer uma sequência de oportunidades, dinheiro e conquistas. Para quem está aqui, a realidade também inclui trabalho, burocracia, preocupações financeiras, adaptação cultural e distância afetiva.

Às vezes, a própria pessoa passa a exigir de si mesma uma gratidão permanente.

Se está cansada, lembra que tem trabalho. Se sente saudade, lembra que escolheu partir. Se está frustrada, compara sua situação com a de alguém que gostaria de ter a mesma oportunidade.

E, pouco a pouco, começa a invalidar os próprios sentimentos.

Mas gratidão não é uma obrigação de estar feliz o tempo inteiro.

Você pode reconhecer os privilégios e as oportunidades que tem e, ainda assim, precisar de descanso. Pode amar sua família e sentir falta dela. Pode estar construindo uma vida melhor em determinados aspectos e sofrer com outros.

Uma coisa não cancela a outra.

O problema começa quando a gratidão deixa de ser um sentimento e passa a funcionar como uma proibição: a proibição de falar sobre o que dói, de pedir apoio ou de admitir que alguma coisa precisa mudar.

Você não precisa comparar seu sofrimento com o sofrimento de outra pessoa para decidir se merece atenção.

A dor não é uma competição. E reconhecer uma dificuldade não significa desprezar tudo aquilo que você conquistou.

Quando dizer “estou bem” se torna um hábito

Existe uma diferença entre escolher preservar a própria intimidade e sentir que não temos permissão para falar sobre o que estamos vivendo.

Talvez você tenha aprendido a responder que está tudo bem porque não quer preocupar seus pais. Talvez evite contar as dificuldades aos amigos porque teme ouvir que deveria estar feliz. Talvez não queira que ninguém pense que sua mudança foi um erro.

Então você seleciona o que conta.

Mostra as conquistas, mas esconde as dúvidas. Compartilha as fotografias bonitas, mas não fala sobre as noites difíceis. Diz que está com saudade, mas não consegue explicar a solidão. Fala que está cansado, mas não conta que há semanas não se sente verdadeiramente descansado.

E, quando percebe, até as pessoas mais próximas podem acreditar que você está vivendo exatamente a vida que sempre quis.

O silêncio pode parecer uma forma de proteção. Em alguns momentos, realmente precisamos de privacidade. Mas, quando esconder o sofrimento se torna a única maneira de continuar, podemos acabar sem espaço para compreender o que estamos sentindo.

Não é necessário contar tudo a todos. Você não precisa expor sua vida nas redes sociais nem justificar suas escolhas para quem não conhece sua realidade.

Mas merece ter pelo menos um espaço em que possa dizer a verdade.

Um espaço em que seja possível falar: “Eu escolhi estar aqui, mas estou tendo dificuldades.”

Sem precisar se defender. Sem precisar provar que tentou o suficiente. Sem precisar ouvir que outras pessoas estão em situações piores.

Nem todo sofrimento é uma doença. Mas nenhum sofrimento deve ser ignorado.

É importante fazer uma distinção.

Sentir saudade, ficar frustrado, ter dias difíceis ou questionar as próprias escolhas não significa, por si só, ter um transtorno mental. A vida envolve perdas, mudanças e períodos de adaptação. Nem toda tristeza precisa receber um diagnóstico.

Entretanto, também não devemos presumir que todo sofrimento desaparecerá sozinho ou que basta ter força de vontade para superá-lo.

Uma revisão integrativa publicada em 2023, dedicada especificamente à saúde mental de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos, identificou temas importantes na literatura disponível: as necessidades de cuidado em saúde mental, as fontes de apoio e estresse na comunidade e no trabalho, e os fatores socioeconômicos relacionados à experiência migratória. Os autores também destacaram a importância do idioma, da compreensão cultural e da sensação de invisibilidade vivida por parte dessa população.

Isso não significa que imigrar necessariamente cause um transtorno mental, nem que todos os brasileiros no exterior tenham a mesma experiência. Significa que a imigração pode envolver desafios específicos que merecem ser compreendidos, inclusive quando afetam a saúde emocional.

Por isso, vale prestar atenção quando o sofrimento persiste, começa a interferir no trabalho ou nos relacionamentos, prejudica o sono, reduz o interesse pelas coisas que antes traziam prazer ou torna cada dia mais difícil de atravessar.

Esses sinais não permitem que você faça um diagnóstico sozinho. São motivos para conversar com um profissional qualificado e compreender melhor o que está acontecendo.

Você não precisa esperar chegar ao limite. E não precisa decidir antecipadamente se o que sente é suficientemente grave para merecer ajuda.

Você pode começar simplesmente dizendo que não está se sentindo bem.

E se você não souber como pedir ajuda em inglês?

Para alguns brasileiros, existe ainda uma barreira que nem sempre aparece nas conversas sobre imigração: a dificuldade de encontrar palavras para descrever o que acontece dentro de si.

Talvez você consiga trabalhar, fazer compras, resolver problemas e conversar em inglês. Mas falar sobre medo, tristeza, vergonha, pensamentos difíceis ou experiências íntimas exige outro tipo de linguagem.

Não é apenas uma questão de vocabulário. É também a possibilidade de se expressar com nuances, compreender perguntas delicadas e sentir que a outra pessoa entende suas referências culturais.

Uma revisão sistemática publicada em 2023 sobre a busca por ajuda profissional em saúde mental entre imigrantes nos Estados Unidos identificou barreiras como o estigma, as crenças culturais, a proficiência limitada em inglês e a falta de confiança nos serviços de saúde como fatores associados à relutância em procurar atendimento.

Se você sente que não conseguiria explicar sua experiência em inglês, saiba que pode procurar profissionais que atendam em português. Antes de marcar uma consulta, você pode perguntar sobre o idioma do atendimento, as credenciais do profissional, os custos e as opções disponíveis para sua situação.

Você não precisa dominar perfeitamente o inglês para merecer cuidado. Existem varios brasileiros que atendem nossa comunidade, nos estamos por aqui.

E não precisa ter uma explicação organizada para começar uma conversa. Pode dizer que está cansado, que anda triste, que não consegue dormir ou que sente que alguma coisa mudou e você não sabe exatamente o quê.

Às vezes, encontrar ou nao encontrar as palavras já faz parte do processo de compreender a própria experiência.

Você não precisa escolher entre ser grato e ser humano

Talvez a vida que você imaginou ao chegar aos Estados Unidos não seja exatamente a vida que tem hoje.

Talvez algumas coisas tenham sido melhores do que você esperava, enquanto outras tenham custado muito mais do que imaginava. Talvez você esteja vivendo uma fase de adaptação. Talvez precise rever planos, reconstruir vínculos ou buscar apoio para lidar com algo que se tornou pesado demais.

Você não precisa resolver tudo hoje.

Também não precisa decidir se ficar, voltar ou mudar novamente seria a escolha certa. Essas são questões que merecem tempo, reflexão e, quando necessário, apoio para serem compreendidas.

Por enquanto, talvez seja suficiente reconhecer que você pode ter escolhido essa vida e ainda assim estar atravessando um momento difícil.

Pode amar os Estados Unidos e sentir saudade do Brasil. Pode valorizar suas conquistas e admitir seu cansaço. Pode continuar acreditando no futuro sem fingir que todos os dias são bons.

E, se perceber que o sofrimento está persistindo, pode procurar ajuda sem transformar isso em uma prova de fracasso.

A vida que você construiu não precisa ser perfeita para ter valor. E você não precisa estar feliz o tempo inteiro para justificar a decisão de estar aqui.

Uma conversa, sem julgamento

Se você se reconheceu nesta história, gostaria que levasse consigo uma ideia: você não precisa se justificar por sentir.

Talvez ninguém ao seu redor saiba exatamente o que está acontecendo. Talvez você mesmo ainda esteja tentando entender. Tudo bem começar daí.

Você não precisa contar sua história inteira de uma vez. Não precisa encontrar as palavras perfeitas. E não precisa comparar sua dor com a de ninguém.

Pode começar com uma frase simples: “Eu achei que estaria tudo bem, mas não está sendo tão fácil quanto imaginei.”

Às vezes, é nesse momento de honestidade que abrimos espaço para compreender o que precisamos.

O Causos nasce para ser um espaço de conhecimento, reflexão e acolhimento. Não para dizer o que você deveria sentir, mas para ajudar a compreender o que está vivendo, reconhecer quando precisa de apoio e lembrar que nenhuma história humana deve ser reduzida a julgamentos.

Você escolheu mudar de país. Não precisa escolher sofrer em silêncio.

Referências científicas utilizadas

1. Brisola, E. B. V., Reis, G., Costa, M., & Bellamy, C. (2023). Brazilian immigrants in the United States and mental health: An integrative review. International Journal of Social Psychiatry, 69(6). https://doi.org/10.1177/00207640231159800

2. Mohammadifirouzeh, M., et al. (2023). Factors Associated with Professional Mental Help-Seeking Among U.S. Immigrants: A Systematic Review. Journal of Immigrant and Minority Health. https://doi.org/10.1007/s10903-023-01475-4

Foto de Livia Baptista

Livia Baptista

Ela sempre foi movida por perguntas. Sua trajetória passou pela Medicina, pelo mundo corporativo, pelo coaching e, finalmente, pela Enfermagem e pela Psiquiatria. Ao longo desse caminho, descobriu que, por trás de cada doença, comportamento ou diagnóstico, existe uma pessoa com uma história própria.

É desse olhar — construído entre experiências pessoais, saúde, cuidado e psiquiatria — que nasce o Causus.


Essas histórias são reflexões baseadas em minhas próprias experiências clínicas e naquilo que vivenciei na prática. Elas não têm a intenção de substituir orientações médicas, protocolos clínicos ou recomendações baseadas em evidências. Cada relato representa a minha perspectiva sobre o que observei, compreendi e aprendi em situações reais, e não deve ser interpretado como uma conduta clínica universal ou aplicável a todos os pacientes.