Existe uma coisa que me incomoda bastante na psiquiatria, e talvez eu ainda mude de opinião conforme continuar estudando. Mas, hoje, essa é uma reflexão que aparece muito para mim. Tenho a impressão de que, muitas vezes, nós profissionais acabamos oferecendo uma falsa esperança para as famílias. Dizemos: “Toma esse remédio que ele vai melhorar.” O problema é que, para muitos pais, a palavra melhorar acaba sendo entendida como curar. Nem sempre explicamos claramente que melhorar não significa deixar de ter esquizofrenia, autismo ou qualquer outro transtorno. Melhorar pode significar controlar sintomas, recuperar funcionalidade, conseguir estudar, trabalhar, tomar banho sozinho ou voltar a conversar. Mas, para muitas famílias, a expectativa continua sendo a de recuperar o filho que existia antes da doença.
Foi justamente estudando mais sobre psiquiatria que comecei a perceber o quanto ainda existe para aprender. Um assunto que tem despertado muito a minha curiosidade é a relação entre autismo e esquizofrenia. As pesquisas mais recentes mostram que existe uma associação importante entre os dois. Pessoas dentro do espectro autista apresentam um risco maior de desenvolver esquizofrenia ao longo da vida. Da mesma forma que ansiedade e depressão frequentemente aparecem juntas, ou TDAH e ansiedade caminham lado a lado, autismo e esquizofrenia também parecem compartilhar alguns mecanismos que ainda estamos tentando compreender.
E foi aí que começaram a surgir algumas perguntas na minha cabeça. Não são respostas. Muito menos conclusões. São questionamentos. Afinal, toda pesquisa científica começa exatamente assim. Às vezes me pergunto se parte do aumento dos diagnósticos de autismo também não pode refletir a dificuldade que ainda temos de reconhecer precocemente alguns transtornos psicóticos. Será que, em determinados casos, alguns comportamentos acabam sendo automaticamente atribuídos ao autismo quando talvez já existam sinais de outra condição surgindo? Ou será que ainda sabemos muito pouco sobre como esses transtornos realmente se sobrepõem? Eu sinceramente não sei. Justamente por isso quero estudar mais.
Mas, quanto mais penso sobre isso, mais percebo que essa discussão acaba chegando em um lugar que nem é mais da psiquiatria. Ela chega na expectativa dos pais.
Tenho a impressão de que muitos pais idealizam filhos que nunca existiram. Antes mesmo de a criança nascer, já imaginam quem ela vai ser. O jogador de futebol. A bailarina. O médico. O advogado. O filho que vai realizar sonhos que, muitas vezes, pertencem aos próprios pais. E isso não acontece apenas com famílias de crianças com transtornos mentais. Acontece com praticamente todas as famílias.
Às vezes aquele filho simplesmente quer trabalhar em uma pizzaria, ser babá, motorista ou qualquer outra profissão honesta. E está feliz assim. O sofrimento, muitas vezes, não está no filho. Está na expectativa que nunca foi atualizada.
Essa semana vivi uma situação que ilustra muito isso. A mãe de um paciente me perguntou, cheia de esperança:
— Ele conversou com você?
O filho dela tem quase quarenta anos. Sempre foi extremamente reservado, tem esquizofrenia, apresenta muita paranoia e nunca gostou de conversar, nem mesmo antes do adoecimento. Eu respondi com muita naturalidade:
— Claro que não.
Ela me olhou surpresa, como se aquilo significasse que ele ainda não estava melhor. Então completei:
— Ainda que ele esteja melhor, ele continua sendo a mesma pessoa. Ele nunca gostou de conversar.
Naquele momento percebi que, muitas vezes, as famílias esperam que a melhora transforme a personalidade da pessoa. Mas não é isso que acontece. A medicação pode diminuir a paranoia, controlar alucinações e estabilizar o humor. Ela não muda quem aquela pessoa sempre foi.
Outra coisa que observo com frequência é a culpa que muitas famílias carregam. Algumas mães tentam encontrar uma explicação para o diagnóstico do filho. Perguntam se foi porque pintaram o cabelo durante a gravidez, porque trabalharam demais, porque tomaram algum remédio ou fizeram alguma escolha errada. Claro que existem fatores de risco conhecidos para algumas condições, e a ciência continua estudando muitos deles. Mas transformar culpa em resposta para tudo é dar aos pais um poder que eles nunca tiveram. Existem mães que fizeram tudo “certo” e tiveram filhos com transtornos graves. Assim como existem pessoas expostas a inúmeros fatores de risco que nunca desenvolveram nenhuma doença.
Talvez esse nem seja um tema que eu queira aprofundar muito nos meus estudos. Não porque ele não seja importante, mas porque acredito que ele pertence muito mais à condição humana do que à psiquiatria. Pais sempre vão sonhar com filhos. Sempre vão criar expectativas. O nosso papel talvez não seja destruir essa esperança, mas ajudá-los a reconstruí-la. Não em direção à cura, mas em direção à funcionalidade, à autonomia possível e, principalmente, à capacidade de enxergar e amar o filho que existe, e não aquele que um dia imaginaram.