Nunca é Sobre Você. Seu Amado só Precisa de Ajuda

Eu sempre falo que, para sobreviver na psiquiatria, você tem que entender uma coisa muito simples: nunca é pessoal. Nunca é sobre você.

Na realidade, eu tento trazer essa mensagem para você, que é pai, mãe, irmão, amigo, parente, que ama e quer bem uma pessoa que está enfrentando uma crise — seja uma internação hospitalar, seja apenas uma primeira consulta no psiquiatra, seja apenas um primeiro surto psicótico, seja apenas um primeiro momento de sofrimento.

É importante que você entenda que tudo que a pessoa está fazendo não é sobre você.

Muitas vezes, é uma disfunção bioquímica. É uma crise. É uma psicose que você também não entende, que a pessoa também não entende, e que ela está tentando comunicar e expressar.

E, muitas vezes, você, como interlocutor, está tentando traduzir uma mensagem que não tem tradução. Na verdade, quase nunca tem tradução para a realidade.

Porque uma pessoa em crise é como uma máquina que perdeu o seu chip principal.

Você pode considerar que, quando você está ali com o celular e ele simplesmente trava, ou alguma coisa na sua casa — uma máquina de lavar, por exemplo — deixa de funcionar.

Eu vou usar esse exemplo porque foi uma coisa que aconteceu comigo ontem, inclusive.

Eu apertei um botão, escolhi lá a opção que a lavadora de roupa teria que fazer e saí. Quando eu voltei, ela estava com todas as luzes vermelhas, simbolizando que alguma coisa estava errada e que ela não estava funcionando.

Era apenas uma máquina de lavar.

Eu simplesmente desliguei o botão, liguei novamente, e ela também não funcionava. Pela terceira vez, eu mudei um pouco a configuração ali e ela voltou a funcionar.

Pode parecer que é sobre uma máquina, mas, sobretudo nessa vida, nosso corpo também é uma máquina.

É uma máquina superinteligente, mas que também, às vezes, tem os botões piscando vermelho. E a gente não consegue, olhando de fora, interpretar o que esses botões vermelhos querem dizer.

A máquina também provavelmente não sabia o que era. Ela só estava piscando um vermelho de alerta, dizendo:

“Eu não estou funcionando. Alguma coisa precisa ser feita.”

E esse “alguma coisa precisa ser feita” muitas vezes não vem de você responder alguma coisa para essa pessoa.

Muitas vezes, você só precisa dar pause no seu próprio botão e pensar:

“Essa pessoa não está tentando me agredir. O que ela está falando não é sobre mim.”

A máquina não estava tentando dizer: “Olha, eu não quero mais trabalhar.”

Ela não estava tentando me dizer: “Olha, acabou por aqui.”

Ela não estava querendo terminar comigo. Ela não estava querendo nada disso.

Era só um alerta pedindo socorro:

“Eu preciso de uma ajuda externa.”

Mas essa voz interna dessa máquina não sabia como dizer isso.

Essa voz interna, muitas vezes, também não sabe como dizer isso.

E muitas vezes a gente precisa de um profissional para olhar de fora e dizer:

“Precisa ajustar esse botão. Ou esse outro.”

Isso, mais uma vez, não é sobre máquinas. Eu estou me referindo à função de um profissional no momento em que essas crises chegam.

E, quando você se sentir desamparado, pode ter certeza: nao é porque você e incompetente, você simplesmente não tem as ferramentas necessárias ou, talvez, porque você esteja tão dragado e conectado emocionalmente por todos esses problemas que é impossível para você pensar fora da caixinha, olhar de fora e perceber:

Não é sobre você. Não é sobre a pessoa.

Nunca foi.

Simplesmente é uma disfunção emocional, bioquímica, que está colapsando esse corpo que continua te amando, que continua te vendo como mãe, irmã, parente, profissional que continua te vendo como porto seguro.

E, muitas vezes, você é tragado pelo desespero de tentar resolver o problema dessa pessoa porque, muitas vezes, como cuidador, você sempre resolveu.

Você resolveu os problemas da escola, os problemas com os coleguinhas. Quando esse seu filho chorou pelo fim de um relacionamento, você sempre esteve ali com a resposta certa.

Mas agora você não tem.

E por que você não tem?

Porque nem sempre o papel do pai, da mãe ou de um cuidador é ter a resposta certa.

Às vezes, é pedir ajuda quando você vê que as ferramentas que você tem em mãos já não são mais compatíveis com a necessidade que esse seu ente querido está apresentando.

Então, hoje, mãe, pai, irmão, amigo, parente, pessoa amada, o que eu quero te dizer é:

Pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

É dizer que você continua cuidando, continua amando, continua querendo que esse seu amado continue a sua vida sem tamanho sofrimento.

Porque, afinal, uma das poucas doenças que envolve a família inteira são os transtornos mentais, as disfunções mentais.

Principalmente porque você leva demais para o lado pessoal.

Você carrega.

Você se sente responsável.

Você diz:

“Eu devia ter feito isso.”

“Eu não devia ter feito isso.”

“Eu devia ter…”

“Eu queria ter…”

“Eu podia ter…”

Mas sabe qual é a resposta mais confortante que você pode dar para você mesmo?

“Eu fiz tudo que eu podia. Agora eu tenho que dar um passo atrás e pedir ajuda.”

E o que eu posso fazer, como cuidador, como pessoa que ama, é deixar os profissionais tomarem conta.

E eu vou continuar fazendo o que eu sempre soube fazer:

Suporte. Amor. Amor incondicional.

Aquele que não julga.

É aquele que ama mesmo quando o barco está para cair, mesmo quando o barco está para naufragar.

Você está ali.

Você está ali presente.

Você está ali para dar bronca. Você está ali para exercer o seu papel.

Você não está ali para dar solução para todos os problemas.

Você está ali, inclusive, para trazer desafios e dificuldades, para tomar decisões difíceis, para ser odiado por essa criança muitas vezes, quando você decide que o melhor para ela e o mais seguro é uma internação hospitalar.

Você tem que estar ali para fazer o papel que eu, como profissional, não posso fazer.

O meu papel é estabilizar o paciente e deixá-lo pronto para voltar para casa.

O seu papel é decidir e aceitar que é hora de deixar nas mãos de quem entende.

Eu entendo de psiquiatria. Você entende de amor incondicional.

E, assim, nós formamos a equipe perfeita para trazer o melhor para o seu ente querido.

Então, o que eu quero, a partir de agora, é que você navegue nessa aventura que eu chamo de aventura porque, realmente, isso faz parte da jornada da vida.

Os transtornos mentais se misturam, muitas vezes, com quem a pessoa é, com o que a pessoa será.

E então é uma das poucas disfunções que necessitam da medicina e que também envolvem todo um comportamento, todo um envolvimento familiar.

Tudo que a pessoa é e o que ela será vai depender de como nós abordamos clinicamente também a vida dessa pessoa.

Quando nós falamos de qualquer outra doença física, um diabetes, por exemplo, que é de longo termo, você vai tratar para sempre do diabetes.

Mas algumas coisas estarão limitadas, como alimentação, como ter que tomar medicação todos os dias.

Mas as doenças, os problemas psiquiátricos, não são bem assim.

Você precisa se adaptar ao novo eu.

Você precisa se adaptar à pessoa que você se tornou, à pessoa que você era antes e depois de um transtorno mental. A familia que voces eram antes do diagnostico agora tem que se adaptar tambem.

Então, por isso que é tão desafiador para uma família não conseguir ajudar, não conseguir comparar, não conseguir diferenciar o que essa pessoa é agora e ficar, muitas vezes, criando falsas esperanças de que a pessoa será a pessoa do passado.

Mas lembre-se: uma das grandes magias também do transtorno mental é que, quando você consegue fazer uma manutenção positiva, essa pessoa aprende a ser tão resiliente, a aproveitar também a vida, que aquela pessoa do passado também não cabe muito mais na vida dela.

Então, é por isso que existe uma pessoa antes e depois da descoberta de qualquer transtorno mental.

Se isso vai ser positivo ou negativo, isso é como tudo na vida.

Para você que é cuidador, amigo, amado, você também tem que entender.

Você tem que entender que também existe um antes e depois.

Não só de você por ajudar essa pessoa durante essa jornada, como também de um novo tipo de relacionamento.

Não que você vai se vitimizar, não que você vá vestir… É outro. É simplesmente diferente.

E, quando você aprende que é diferente, você consegue passar pela passagem do luto sem sofrer tanto.

Porque você não está idealizando, romantizando.

Você está enfrentando a vida como ela é.

Afinal, a verdade nua e crua, no início, pode doer.

Ela vai doer.

Ela vai doer muito.

Você vai viver esse momento de luto, e é importante que você viva o luto.

Porque, se você não viver, você vai passar a vida inteira em negação, esperando aquela pessoa do passado que você era e que o seu amado também era.

Então, quando você vive o luto de uma forma positiva, isso quer dizer que você realmente experimentou, viveu, e agora você está pronto para ser a melhor versão de você mesmo, para encontrar a melhor versão do seu amado.

Então, aprenda a navegar nessa jornada, que não tem data para terminar. Conhece essa nova pessoa que chegou na sua vida, sem julgamentos, apenas com amor.

Ela está começando hoje, mas é um caminho sem volta.

Quando você começar a navegar nos caminhos da saúde mental, do cuidado, da mentalidade, de como uma mentalidade positiva faz toda a diferença no tratamento, com a medicação perfeita — aliás, não existe medicação perfeita, mas a medicação ideal para o seu amado — isso vai fazer toda a diferença na sobrevivência de vocês todos.

As vezes tudo que sua amada pessoa precisa de internação. Estar fora, num ambiente neutro, para se entender por dentro.

E eu espero que, a partir de agora, você aprenda dia a dia a também olhar para o seu amado e falar:

“Talvez seja a hora de sim.”

“Talvez seja a hora de não.”

“Isso faz parte do transtorno.”

“Isso não faz parte do transtorno.”

“Eu devo ser firme?”

“Eu devo ser amado?”

“Eu devo julgar?”

“Ou eu devo não julgar?”

“É sobre mim?”

“É sobre o outro?”

“Essa pessoa está querendo me manipular?”

E eu tenho certeza que, no final, voce vai entender que a luz vermelhinha que acendeu no seu amado nao era para te confrontar, muito menos para te deixar culpado, era apenas um alerta de que algo dentro estava errado e que uma ajuda externa foi necessaria.

Foto de Livia Baptista

Livia Baptista

Ela sempre foi movida por perguntas. Sua trajetória passou pela Medicina, pelo mundo corporativo, pelo coaching e, finalmente, pela Enfermagem e pela Psiquiatria. Ao longo desse caminho, descobriu que, por trás de cada doença, comportamento ou diagnóstico, existe uma pessoa com uma história própria.

É desse olhar — construído entre experiências pessoais, saúde, cuidado e psiquiatria — que nasce o Causus.


Essas histórias são reflexões baseadas em minhas próprias experiências clínicas e naquilo que vivenciei na prática. Elas não têm a intenção de substituir orientações médicas, protocolos clínicos ou recomendações baseadas em evidências. Cada relato representa a minha perspectiva sobre o que observei, compreendi e aprendi em situações reais, e não deve ser interpretado como uma conduta clínica universal ou aplicável a todos os pacientes.