O luto invisível

O Luto Invisivel


Outro dia uma mãe me fez uma pergunta muito simples.Ela olhou para mim e perguntou:
— Ele conversou com você?
O filho dela já tem quase quarenta anos. Antes da esquizofrenia aparecer, ele jogava basquete na escola, tinha notas excelentes, era um menino completamente funcional. A doença apareceu já na vida adulta e mudou completamente o rumo da vida dele.
Eu respondi para ela:
— Claro que não.
Ela olhou para mim com uma cara de espanto, como se estivesse pensando: "Mas ele está melhor."
Foi aí que eu expliquei:
— Ainda que ele esteja melhor, ele continua sendo a mesma pessoa. Ele nunca gostou muito de conversar.

A thoughtful, abstract image of light filtering through a window onto a stack of professional journals and a small lavender sprig, representing clinical reflection.

Essa conversa ficou na minha cabeça depois.Eu acho que uma das partes mais difíceis da psiquiatria é justamente essa expectativa que as famílias criam sobre o tratamento. Muitas vezes, quando a gente fala que o paciente vai melhorar, a família entende uma coisa completamente diferente do que nós queremos dizer.


“Melhorar, para eles, muitas vezes significa voltar a ser quem era antes da doença.”


E não é isso.

A medicação não faz uma pessoa deixar de ser esquizofrênica. Ela também não faz uma pessoa que sempre foi mais reservada virar alguém extrovertido, que conversa com todo mundo. Ela diminui sintomas. Ela estabiliza crises. Ela devolve funcionalidade. Ela faz aquele paciente voltar a dormir, voltar a comer, voltar a tomar banho, conseguir sair de casa, conseguir ir ao supermercado, conseguir conversar quando ele tem vontade de conversar.

“Isso já é uma melhora enorme.” Mas não é uma cura.

Eu acho que, às vezes, nós mesmos, profissionais, alimentamos uma esperança que depois se transforma em frustração. A gente fala "ele vai melhorar", mas talvez a família esteja ouvindo "ele vai voltar a ser aquele menino de dezoito anos". E esse menino talvez não exista mais. Ainda que tivesse zero diagnostico, afinal ele agora tem quase quarenta.

Quando penso nisso, lembro de um paciente que simplesmente repetia tudo o que alguém falasse para ele. Bastava alguém sussurrar alguma coisa no ouvido dele e ele repetia imediatamente. Para um adulto normal parece estranho, mas para uma pessoa que sempre ouviu vozes, talvez fica dificil interpretar se deve obedecer ou nao. Aí eu fico imaginando como deve ser para esse paciente ouvir vozes de comando o tempo inteiro. Se ele já não consegue distinguir um comando vindo de uma pessoa do lado dele, imagina diferenciar aquilo que vem de uma alucinação durante uma psicose.Então, até que ponto o tratamento é fazer essa voz desaparecer?
Na minha opinião, nem sempre.

Às vezes o tratamento é fazer com que aquela voz deixe de controlar a vida dele.


É diminuir a intensidade, diminuir o sofrimento e ensinar estratégias para que ele consiga viver melhor, mesmo sabendo que aquela condição continua existindo.
É por isso que eu acho tão importante a forma como a gente conversa com as famílias.
Talvez aquele rapaz nunca mais volte a ser o jogador de basquete.
Talvez ele nunca mais tenha o mesmo GPA.
Talvez ele nunca mais tenha exatamente os mesmos interesses que tinha aos dezoito anos.
Mas isso não significa que ele não possa ter qualidade de vida.
Talvez hoje a grande vitória seja conseguir ir à igreja com a mãe.
Conseguir almoçar com a família.
Conseguir cumprimentar uma visita sem entrar em paranoia.
Conseguir passar uma semana inteira tomando banho todos os dias.

Essas são as vitórias de hoje.




E eu acho que, muitas vezes, a família ainda está procurando as vitórias de doze anos atrás.Essa reflexão me lembra uma conversa que tive com a minha própria mãe.
Um dia ela veio me visitar e começou a falar de coisas de que eu gostava quando morava em minha cidade natal, ainda na casa dela aos 20 e poucos anos.
Ela dizia:
— Você gostava disso.
E eu respondia:
— Não gosto mais.
Ela falava de outra coisa.
— Você fazia isso.
— Também não faço mais.
Até que em determinado momento eu falei para ela:
— A senhora já percebeu que aquela menina que morava em Teixeira de Freitas morreu? É claro que eu não estava falando de morte.
Eu estava falando da pessoa que eu era e que hoje sou outra.

Já se passaram mais de quatorze anos desde que saí de casa. Nesse tempo eu morei em outros países, aprendi outros idiomas, conheci outras culturas, me casei, encontrei um propósito profissional. É impossível eu continuar sendo a mesma menina que ela conheceu.
O corpo é o mesmo. Um pouco mais flacido e caido, mas ainda ta ai.
Mas a pessoa mudou. Por dentro, por experiencias, por propositos, por rotinas quebradas.
E eu acho que isso acontece com todos nós.

Os pais, muitas vezes, continuam presos ao filho que conheceram anos atrás. À imagem que construíram daquela criança, daquele adolescente ou daquele jovem adulto. Ou mais, daquela crianca idealizada, que ja nasceu com o peso de ser alguem que os pais sonharam.
Eu tive uma grande sorte da minha mae sempre nos incetivar a "fazer o que gosta, sejam apenas honestos, trabalhadores e independentes. "Quando isso acontece comigo, (a comparacao, o julgamento) muda muito pouco a minha vida, ou quase nada.
Eu sou independente. Minha mãe pode continuar acreditando que eu gosto das mesmas coisas de quinze anos atrás, mas isso não interfere nas decisões que tomo hoje.
Na psiquiatria é diferente.
Muitos desses pacientes dependem completamente dos pais para tomar medicação, ir às consultas e organizar a própria vida. Quando a família continua esperando aquele filho que existia antes da doença, ela pode acabar deixando de enxergar quem aquele filho é hoje.

“E eu acho que esse é um luto sobre o qual quase ninguém fala.”
Não é o luto da morte.
É o luto da expectativa.


Aceitar que aquele jogador de basquete talvez não exista mais não significa desistir do filho.Significa começar a enxergar o homem que ainda está ali.Porque talvez ele nunca mais jogue basquete. Ainda que nunca tivesse sofrido transtorno mental. Quantos pais sao frustrados porque os filhos contradizem as imagens sonhadas.
Mas talvez ele consiga viver com dignidade.


“E, para mim, esse sempre será o verdadeiro objetivo do tratamento.”


Foto de Livia Baptista

Livia Baptista

Ela sempre foi movida por perguntas. Sua trajetória passou pela Medicina, pelo mundo corporativo, pelo coaching e, finalmente, pela Enfermagem e pela Psiquiatria. Ao longo desse caminho, descobriu que, por trás de cada doença, comportamento ou diagnóstico, existe uma pessoa com uma história própria.

É desse olhar — construído entre experiências pessoais, saúde, cuidado e psiquiatria — que nasce o Causus.


Essas histórias são reflexões baseadas em minhas próprias experiências clínicas e naquilo que vivenciei na prática. Elas não têm a intenção de substituir orientações médicas, protocolos clínicos ou recomendações baseadas em evidências. Cada relato representa a minha perspectiva sobre o que observei, compreendi e aprendi em situações reais, e não deve ser interpretado como uma conduta clínica universal ou aplicável a todos os pacientes.